Para Samuel Vasconcelos, de 49 anos, o trabalho não termina necessariamente quando o caminhão é estacionado. Depois de mais de 25 anos percorrendo longas distâncias, ele conhece o cansaço de passar horas ao volante e a dificuldade de conciliar as exigências da profissão com os cuidados com a própria saúde. “A minha rotina acaba repercutindo na minha saúde e dentro de casa. Chego da estrada irritado, estressado, e isso acaba repercutindo dentro de casa. Desenvolvi hipertensão e tenho alguns problemas na mente”, confessa o caminhoneiro.
Na tentativa de permanecer acordado durante as viagens, Samuel recorre ao uso de medicamentos para se manter desperto. A estratégia, segundo o relato dele, está ligada à dificuldade de enfrentar jornadas prolongadas e cumprir os compromissos profissionais. “Eu experimentei a primeira vez numa viagem para o Recife. Deu resultado, fiquei muito esperto e consegui cumprir a agenda antes do prazo. Agora uso sempre, mas preciso parar porque toda vez que uso o meu coração acelera”, admite.
A experiência de Samuel ajuda a compreender um problema que atinge outros profissionais do transporte de cargas: a dificuldade de conciliar longas jornadas, descanso e cuidados preventivos. Para quem depende da estrada para trabalhar, reconhecer os sinais de esgotamento nem sempre é simples, especialmente quando há compromissos e prazos a cumprir. Mas insistir na direção apesar da sonolência pode colocar em risco tanto o motorista quanto outras pessoas.
DESGASTE
A 3ª Pesquisa Nacional sobre a Realidade do Transportador Autônomo de Cargas, Em dezembro de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) registrava 769.253 transportadores autônomos de cargas no país, considerando registros ativos, pendentes e suspensos Um levantamento divulgado pela Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) identificou uma jornada média de trabalho de 14 horas por dia entre essa categoria profissional. O levantamento também apontou que os entrevistados passavam, em média, 16 dias por mês longe da família.
A pesquisa mostra ainda que 86% dos participantes não praticavam atividade física e que 62% procuravam atendimento médico somente quando já estavam doentes. Além disso, 56,7% relataram ter alguma comorbidade, ou seja, uma doença ou condição de saúde associada.
Outro resultado diz respeito ao uso de substâncias para dirigir: 27,3% dos entrevistados afirmaram já ter utilizado alguma substância psicoativa ao volante. Esse dado não significa, necessariamente, que todos tenham recorrido a medicamentos proibidos ou a um mesmo tipo de estimulante, mas reforça a necessidade de discutir os riscos de tentar prolongar o estado de alerta sem descanso adequado.
SONO E RISCO
Lucas Campos, professor do Instituto de Educação Médica (IDOMED), especialista em urgência e emergência e médico do trabalho, explica que respeitar os limites do corpo é uma medida essencial para quem dirige profissionalmente. Isso porque a fadiga compromete a atenção e pode aumentar o tempo necessário para reagir a uma situação inesperada.
“Em casos de sonolência intensa, o motorista pode apresentar microssonos, episódios breves de sono involuntário que passam despercebidos. Mesmo durando pouco, esses episódios podem ser suficientes para provocar uma colisão ou fazer o veículo sair da pista. Você perde tempo de reação caso alguma situação aconteça”, explica Lucas.
O especialista recomenda interromper a viagem ao perceber os primeiros sinais de cansaço. “Se você se sentir levemente cansado, para, caminha, anda um pouco, toma uma água, vai no banheiro, relaxa cinco, dez minutos e volta a dirigir”, orienta.
O uso de estimulantes também exige atenção. Essas substâncias podem provocar efeitos adversos, inclusive cardiovasculares, e não substituem o sono necessário para a recuperação do organismo. Sentir-se momentaneamente mais desperto não significa estar em condições seguras para continuar dirigindo. Diante da sonolência, a orientação é parar em local seguro e descansar antes de retomar o percurso.
O corpo sente
O desgaste de quem passa horas ao volante também aparece na postura e nas dores físicas. Permanecer sentado por períodos prolongados, manter uma posição inadequada e enfrentar as vibrações do veículo podem sobrecarregar músculos e articulações, especialmente na região lombar.
A lombalgia, como é chamada a dor na parte inferior das costas, pode se tornar recorrente e comprometer as atividades diárias. “Essa lombalgia pode se tornar um quadro de dor crônica, que pode durar horas ou até mesmo dias”, alerta Lucas.
A alimentação também pode ser prejudicada pelos horários irregulares e pelas opções disponíveis durante as viagens. Organizar refeições e lanches para comer durante as paradas, manter água sempre acessível e variar os alimentos são formas de cuidar da saúde ao longo do percurso.
Segundo Campos, o descanso é igualmente importante para a recuperação física e mental. “A pressão dos prazos, a atenção constante exigida pela direção e os períodos longe de casa podem afetar o bem-estar emocional e a convivência familiar”, explica Lucas. No caso de Samuel, os problemas de saúde mental e os reflexos na vida pessoal mostram que as consequências da rotina não se limitam ao tempo passado dentro do caminhão.
PAUSA PARA MOVIMENTAR
As pausas para movimentar o corpo não são importantes apenas para os caminhoneiros. Quem trabalha em escritórios ou passa muitas horas diante de um computador também pode sentir os efeitos de permanecer na mesma posição por tempo prolongado.
Lucas Campos recomenda pequenas interrupções durante o expediente. “O ideal é que a cada meia hora você levante e caminhe um pouquinho”, afirma. E nada de se sentir culpado: mesmo com muita coisa para fazer, as pausas são fundamentais. “Não se culpe. Você precisa levantar, fazer alguma outra coisa, falar com o colega do outro lado ou fazer aquela parada para o cafezinho, inclusive para continuar funcionando e concentrado”, acrescenta o especialista.
A prevenção também envolve condições de trabalho, acompanhamento médico e cumprimento das regras aplicáveis a cada atividade. No Brasil, as normas regulamentadoras NR-1, NR-7, NR-9 e NR-24 tratam de aspectos relacionados ao gerenciamento de riscos ocupacionais, à saúde dos trabalhadores e às condições de trabalho. Para motoristas profissionais, também existem regras específicas sobre jornada, pausas e descanso. “Para quem depende da estrada para trabalhar, reconhecer os sinais de cansaço, priorizar o descanso e buscar acompanhamento de saúde são atitudes essenciais para continuar dirigindo sem deixar o próprio bem-estar em segundo plano”, conclui Lucas.














Deixe um comentário