A dramaturgia brasileira perdeu, em menos de 24 horas, duas de suas maiores referências. Laura Cardoso, aos 98 anos, morreu na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. No dia seguinte, terça-feira (18), foi a vez de Glória Menezes, aos 91 anos, morrer no Rio de Janeiro. As duas construíram carreiras de mais de seis décadas e atravessaram diferentes fases da televisão, do teatro e do cinema no Brasil.
A coincidência das despedidas torna ainda mais simbólico o momento de luto da cultura brasileira. Laura Cardoso foi uma das pioneiras da televisão nacional. Começou no rádio aos 15 anos e chegou à TV Tupi ainda nos primeiros anos do novo meio de comunicação. Participou de teleteatros e novelas que ajudaram a estabelecer a linguagem da televisão brasileira. Em 1981, estreou na Globo e passou a integrar um dos elencos mais importantes da dramaturgia nacional.
Ao longo de mais de oito décadas de carreira, Laura interpretou personagens em dezenas de novelas, séries, peças e filmes. Entre os trabalhos mais lembrados estão Mulheres de Areia, A Viagem, Gabriela, Caminho das Índias, Sol Nascente e A Dona do Pedaço, sua última novela, exibida em 2019. No cinema, também se destacou em produções como Terra Estrangeira e Através da Janela. Seu último trabalho foi o curta-metragem Dona Rosinha, lançado em 2025.
Glória Menezes também começou sua trajetória na televisão no fim dos anos 1950, inicialmente no teleteatro. Em 1963, fez história ao protagonizar 2-5499 Ocupado, ao lado de Tarcísio Meira, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira. A produção ajudou a estabelecer o formato de capítulos diários que se tornaria uma das principais marcas da televisão no país.
Na Globo, Glória construiu uma coleção de personagens que atravessaram gerações. Viveu Lara, Diana e Márcia em Irmãos Coragem, Ana Preta em Pai Herói, Laurinha Figueiroa em Rainha da Sucata e a Baronesa de Bonsucesso em Senhora do Destino. Sua última novela foi Totalmente Demais, em 2015. No cinema, um dos destaques foi O Pagador de Promessas, filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes.
As duas dividiram o mesmo palco
Embora tenham construído trajetórias próprias e muitas vezes trabalhado em diferentes núcleos da dramaturgia, Glória Menezes e Laura Cardoso também estiveram juntas em cena. A parceria começou ainda nos primeiros anos da televisão, em 1959, no teleteatro Um Lugar ao Sol, da TV Tupi. Décadas depois, voltaram a dividir uma produção na novela Senhora do Destino, em 2004.
A relação entre as duas, portanto, remonta a uma época em que a televisão brasileira ainda estava sendo criada. Laura representava a geração pioneira que ajudou a levar o teatro e o rádio para a televisão. Glória, por sua vez, tornou-se uma das protagonistas da consolidação da telenovela como um dos principais produtos culturais e populares do país.
Legados que permanecem
A importância das duas atrizes vai além da quantidade de trabalhos realizados. Laura Cardoso deixa como legado a longevidade, a disciplina e a capacidade de se reinventar ao longo de diferentes gerações da televisão. Sua carreira acompanhou praticamente toda a evolução da dramaturgia brasileira, do teleteatro às grandes novelas e às produções contemporâneas.
Glória Menezes deixa como marca a força das protagonistas, a versatilidade e a participação em momentos decisivos da teledramaturgia. Ao lado de Tarcísio Meira, formou um dos casais mais emblemáticos da televisão brasileira, mas também construiu uma carreira independente, marcada por personagens de diferentes perfis e por trabalhos relevantes no cinema e no teatro.
A morte das duas, com menos de um dia de diferença, encerra simbolicamente uma parte importante da história da dramaturgia brasileira. Laura Cardoso e Glória Menezes deixam personagens, cenas e histórias que continuarão sendo revisitadas por novas gerações. Mais do que estrelas de uma época, elas ajudaram a construir a própria memória afetiva da televisão brasileira.


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