A trajetória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva é marcada por derrotas, mudanças de estratégia e alianças que ampliaram seu espaço político ao longo de quase quatro décadas. Depois de perder três disputas presidenciais consecutivas, em 1989, 1994 e 1998, o petista chegou ao Palácio do Planalto em 2002. Foi reeleito em 2006, voltou à Presidência em 2022 e conquistou o quarto mandato em 2026, tornando-se o primeiro político brasileiro eleito quatro vezes presidente pelo voto direto.
As quatro vitórias aconteceram em cenários bastante diferentes. Em 2002, Lula apresentou uma imagem mais moderada e ampliou o diálogo com o empresariado. Em 2006, venceu mesmo sob o impacto da crise política do mensalão. Em 2022, derrotou o então presidente Jair Bolsonaro em uma disputa apertada. Já em 2026, superou Flávio Bolsonaro depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário — uma virada inédita na história das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização.
2002: a primeira vitória, depois de três derrotas
A primeira eleição vencida por Lula aconteceu em 2002, após três tentativas frustradas de chegar à Presidência. Em 1989, ele perdeu para Fernando Collor de Mello no segundo turno. Em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso ainda no primeiro turno.
A campanha de 2002 marcou uma mudança importante na estratégia do Partido dos Trabalhadores (PT). Lula passou a dialogar com setores que demonstravam desconfiança em relação ao partido e à possibilidade de mudança na política econômica. Um dos símbolos dessa aproximação foi a escolha do empresário e senador José Alencar, do Partido Liberal (PL), para vice-presidente.
A chapa também foi acompanhada pela divulgação da chamada Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula assumiu o compromisso de respeitar contratos e preservar a estabilidade econômica. A estratégia buscava diminuir a resistência de investidores, empresários e eleitores que temiam mudanças bruscas na condução da economia.
No segundo turno, Lula derrotou José Serra, do PSDB, e recebeu 52.793.364 votos, equivalentes a 61,27% dos votos válidos. Serra ficou com 38,73%. A vitória representou a chegada de um ex-metalúrgico e líder sindical ao comando do país, após uma trajetória construída no movimento trabalhista e na fundação do PT.
2006: reeleição em meio à crise do mensalão
Quatro anos depois, Lula disputou a reeleição em um ambiente político mais difícil. O governo enfrentava as consequências do escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio parlamentar que provocou uma das maiores crises políticas de seu primeiro mandato.
O episódio atingiu dirigentes do PT e aliados do governo e criou dúvidas sobre a capacidade de Lula de manter apoio eleitoral. Mesmo assim, o presidente chegou ao segundo turno contra Geraldo Alckmin, do PSDB, então governador de São Paulo.
A campanha foi marcada pelo contraste entre a crise política e a avaliação de parte do eleitorado sobre a situação econômica e os programas sociais do governo. Lula também manteve uma aliança ampla, com o apoio de partidos e lideranças de diferentes campos políticos.
No segundo turno, o presidente foi reeleito com 58.295.042 votos, ou 60,83% dos votos válidos. Alckmin recebeu 37.543.178 votos, correspondentes a 39,17%. O resultado ampliou a votação de Lula em relação a 2002 e mostrou que o desgaste político não foi suficiente para impedir sua permanência no cargo.
2022: retorno após 12 anos e disputa apertada contra Bolsonaro
Depois de deixar a Presidência em 2010, Lula permaneceu como uma das principais lideranças políticas do país, mas sua trajetória foi atingida pela Operação Lava Jato. Em 2018, ele foi impedido de concorrer enquanto estava preso. Posteriormente, as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, permitindo que recuperasse seus direitos políticos.
Em 2022, Lula voltou a disputar a Presidência contra Jair Bolsonaro, que tentava a reeleição. A campanha ocorreu em um ambiente de forte polarização política, com debates sobre economia, políticas sociais, pandemia, democracia e o papel das instituições.
A chapa de Lula teve como vice Geraldo Alckmin, antigo adversário político que havia disputado a Presidência pelo PSDB em 2006. Na eleição de 2022, Alckmin estava filiado ao PSB. A escolha simbolizou a tentativa de formar uma frente mais ampla, reunindo a esquerda, setores de centro e grupos contrários à continuidade do governo Bolsonaro.
A coligação Brasil da Esperança reuniu a federação formada por PT, PCdoB e PV, além de Solidariedade, Federação PSOL-Rede, PSB, Agir, Avante e Pros.
No segundo turno, realizado em 30 de outubro, Lula recebeu 60.345.999 votos, equivalentes a 50,90% dos votos válidos, contra 58.206.354 votos de Bolsonaro, que obteve 49,10%. A diferença foi de pouco mais de 2,1 milhões de votos, tornando a eleição uma das mais apertadas da história recente do país.
2026: a eleição mais recente e a virada histórica
A quarta vitória ocorreu ontem, quando Lula disputou a reeleição contra Flávio Bolsonaro, do PL. O cenário foi diferente das três vitórias anteriores: pela primeira vez, Lula terminou o primeiro turno em segundo lugar.
Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.503 votos, ou 47,03% dos votos válidos. Lula ficou com 53.879.538 votos, equivalentes a 45,16%. A diferença de mais de 2,2 milhões de votos colocou o presidente diante do desafio de ampliar sua base eleitoral em apenas três semanas.
A campanha foi reorganizada para o segundo turno, com maior mobilização nas ruas e nas redes sociais. Lula adotou uma comunicação mais direta com o eleitorado, enquanto aliados intensificaram a atuação digital e a articulação política. A disputa também foi marcada pela polarização entre o campo petista e o bolsonarismo.
Ontem, 25 de de outubro, Lula conseguiu reverter o resultado e venceu com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. O petista acrescentou mais de 10 milhões de votos à sua votação do primeiro turno e encerrou a eleição com uma vantagem superior a 4,4 milhões de votos.
A virada fez de 2026 uma eleição singular: desde a retomada das eleições presidenciais diretas, em 1989, nenhum candidato havia terminado o primeiro turno atrás e vencido a disputa no segundo.
As quatro vitórias de Lula em números
| Ano | Adversário no segundo turno | Votos de Lula | Percentual dos votos válidos |
|---|---|---|---|
| 2002 | José Serra (PSDB) | 52.793.364 | 61,27% |
| 2006 | Geraldo Alckmin (PSDB) | 58.295.042 | 60,83% |
| 2022 | Jair Bolsonaro (PL) | 60.345.999 | 50,90% |
| 2026 | Flávio Bolsonaro (PL) | 64.256.232 | 51,79% |
Os números mostram que Lula obteve sua maior votação absoluta em 2026. Em termos proporcionais, porém, sua vitória mais expressiva continua sendo a de 2002, quando alcançou 61,27% dos votos válidos no segundo turno.














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