A morte dos irmãos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, passou a integrar a investigação conduzida pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA) sobre o atendimento no Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís. A apuração reúne denúncias de familiares e profissionais de saúde sobre possíveis falhas na assistência, aumento de mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), redução de equipes médicas e irregularidades na gestão da unidade. A Prefeitura de São Luís nega as acusações e afirma que o hospital mantém atendimento regular e dentro das normas técnicas.
O caso dos gêmeos ocorreu entre o fim de junho e o início de julho deste ano. Moradores de Rosário, Bento e Bernardo deram entrada no Hospital da Criança com sintomas gripais. Bento morreu após sofrer duas paradas cardiorrespiratórias e ser encaminhado à UTI. Bernardo permaneceu internado, foi intubado, mas, segundo a família, não chegou a ser transferido para uma unidade de terapia intensiva e morreu menos de 48 horas depois. Os pais registraram boletim de ocorrência e alegam que houve falhas no atendimento. O caso é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil.
Além da situação envolvendo os irmãos, o MP-MA apura denúncias encaminhadas à Ouvidoria-Geral do SUS que apontam possível negligência, imperícia médica, redução do número de profissionais e problemas na assistência aos pacientes. Conforme os dados apresentados pelo órgão, em 2025 foram registrados 113 óbitos no hospital, sendo 101 nas três UTIs da unidade. Em 2024, esse número teria sido de 39 mortes nas UTIs, o que representaria um aumento de 159%. A investigação também busca esclarecer se a mudança na gestão das UTIs, assumida pelo Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) após licitação realizada em 2025, teve relação com esse cenário. A Defensoria Pública apontou possíveis irregularidades no processo licitatório e recomendou a anulação do contrato.
Em resposta, a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) afirma que não houve aumento expressivo da mortalidade no Hospital da Criança e contesta a interpretação dos dados apresentados pelo Ministério Público. Segundo a Prefeitura, os registros gerais da unidade apontam 143 óbitos em 2022, 112 em 2024 e 117 em 2025, indicando redução acumulada de 18% em relação a 2022. A gestão municipal afirma ainda que todos os óbitos são registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e que diferenças entre bancos de dados podem decorrer dos prazos de processamento das informações.
Sobre a contratação do IBMED, a Prefeitura sustenta que a licitação seguiu a Lei Federal nº 14.133/2021 e as normas da Anvisa. Também destaca que a recomendação da Defensoria Pública tem caráter orientativo e que o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) indeferiu pedido de suspensão do contrato e determinou o arquivamento da representação. Em relação às denúncias de falta de profissionais e medicamentos, a Semus afirma que o quadro de intensivistas atende às exigências da RDC nº 7/2010 da Anvisa e que não há desabastecimento generalizado, admitindo apenas oscilações pontuais de estoque em períodos de maior demanda.
A Prefeitura também informa que o Hospital da Criança recebeu classificação de alta conformidade na Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente, promovida pela Anvisa, e que uma vistoria do Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA) não identificou irregularidades graves nas UTIs. Segundo a gestão municipal, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e aproximadamente 71% das internações no primeiro semestre de 2026 foram de pacientes vindos de outros municípios maranhenses, muitos deles em estado grave.
Enquanto isso, o Ministério Público, a Defensoria Pública, a Polícia Civil, o Ministério da Saúde e outros órgãos de controle seguem acompanhando o caso. As investigações buscam esclarecer se houve falhas na assistência prestada aos pacientes, identificar eventuais responsabilidades e verificar se a gestão da unidade atende aos padrões exigidos para o atendimento pediátrico de alta complexidade. O caso dos irmãos Bento e Bernardo permanece como um dos principais focos da apuração.


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